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Epidemia da solidão

Estudos recentes indicam que um número crescente de pessoas estão se sentindo solitárias

Nos tempos modernos, está se tornando cada vez mais comum experimentar uma sensação de solidão, mesmo estando rodeado por outras pessoas

"O impacto na mortalidade de estar socialmente desconectado é semelhante ao de fumar 15 cigarros por dia", diz médico, que desempenha um papel fundamental como porta-voz das questões de saúde e lidera um grupo de profissionais médicos do Exército dos Estados Unidos.

Por que as pessoas estão cada vez mais se sentindo solitárias? Em seu livro “Hanging Out: The Radical Power of Killing Time” (“Sair Para Se Divertir: O Poder Radical de Passar o Tempo”, em tradução livre), a professora Sheila Liming teoriza que uma das causas desta crise nos EUA é a “incapacidade de sair para se divertir ou de se encontrar com outras pessoas”, “sem criar expectativas enormes” sobre esses encontros.

Segundo Liming, além da falta de tempo, muitos sentem que a interação social em si é uma perda de tempo, por isso não a priorizam.

“Acho que é preciso um pouco de coragem e audácia para poder dizer: ‘Não, vou priorizar esse uso do meu tempo, em vez de, digamos, trabalhar mais’“, diz a professora. Às vezes, o importante é estar junto e fazer nada.

Nos tempos modernos, está se tornando cada vez mais comum experimentar uma sensação de solidão, mesmo estando rodeado por outras pessoas. Uma das razões para essa epidemia de solidão é o fato de que muitas pessoas não se sentem confortáveis em simplesmente passar tempo com os outros sem realizar alguma atividade específica ou sem se envolver em uma conversa significativa.

A terapeuta Madalena Feliciano comenta que, na sociedade atual, estamos constantemente ocupados, sempre conectados e buscando atividades que nos mantenham produtivos ou entretidos. Isso pode fazer com que nos sintamos desconfortáveis ou até mesmo ansiosos quando estamos em situações em que não há uma atividade específica em andamento. A ideia de “não fazer nada” pode parecer estranha ou desperdício de tempo para muitas pessoas.

No entanto, é nessas situações de “não fazer nada” que muitas vezes surgem conexões genuínas, intimidade e um senso de pertencimento. A simples presença e a companhia de outras pessoas podem ser suficientes para criar um senso de conexão e combater a solidão.

“A teoria sugere que a falta de disposição para passar tempo com os outros sem fazer nada, sem uma atividade específica planejada, contribui para a epidemia de solidão que estamos enfrentando atualmente. Ao nos afastarmos dessas interações mais genuínas e espontâneas, perdemos a oportunidade de desenvolver relacionamentos significativos e de combater a solidão”, destaca Madalena Feliciano.

No entanto, é importante ressaltar que cada pessoa tem suas próprias circunstâncias e desafios individuais. A epidemia de solidão é um problema complexo e multifacetado, e a superação dela pode exigir abordagens personalizadas e soluções específicas para cada indivíduo.

A afirmação de que é preciso coragem e audácia para priorizar o uso do tempo em atividades além do trabalho, em vez de simplesmente trabalhar mais, reflete uma percepção importante sobre a sociedade atual.

Vivemos em uma cultura que muitas vezes valoriza excessivamente o trabalho e a produtividade, levando as pessoas a dedicarem a maior parte de seu tempo e energia a suas carreiras. Essa mentalidade pode levar à negligência de outras áreas importantes da vida, como relacionamentos, lazer, autocuidado e conexões sociais significativas.

Dizer “não” ao trabalho excessivo e priorizar o tempo para outras atividades requer coragem e audácia, pois pode envolver desafiar as expectativas sociais e as pressões internas de alcançar constantemente mais sucesso profissional. Isso também pode exigir estabelecer limites claros e defender o direito de ter uma vida equilibrada e gratificante em todos os aspectos.

A pandemia e a tecnologia digital fizeram esta geração pensar que basta conhecer outras pessoas pela internet. E isso não é algo negativo, mas certamente não é o suficiente.

É verdade que a digitalização e as plataformas online têm proporcionado novas maneiras de se conectar com outras pessoas. Elas podem ser úteis para conhecer pessoas, manter relacionamentos à distância e acessar informações valiosas. No entanto, é importante lembrar que as interações virtuais não substituem completamente as conexões pessoais e a intimidade face a face.

A pandemia, em particular, trouxe à tona a importância do contato humano real e do envolvimento em atividades presenciais. As restrições de isolamento social destacaram a necessidade fundamental que temos de interações sociais genuínas, contato físico e compartilhamento de experiências no mundo real.

Portanto, embora a tecnologia digital possa ser útil, não devemos depender exclusivamente dela para satisfazer nossas necessidades de conexão e relacionamento. É fundamental buscar um equilíbrio saudável entre as interações online e offline, reconhecendo o valor único que cada uma delas pode oferecer.

“Combater a epidemia de solidão requer uma abordagem personalizada, pois cada indivíduo enfrenta circunstâncias e desafios únicos. No entanto, uma coisa é certa: a conexão genuína e o tempo gasto junto são fundamentais para combater a solidão e construir relacionamentos significativos. Devemos buscar oportunidades para nos envolvermos em interações sociais autênticas, onde possamos compartilhar experiências, apoiar uns aos outros e cultivar um senso de pertencimento”. Conclui Madalena Feliciano.

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